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O Socialismo do Século XXI
No segundo artigo da série sobre os desafios presentes e futuros da
esquerda, o sociólogo Boaventura de Sousa Santos analisa o que poderia ser o
"socialismo do século XXI"
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O que de mais relevante está a acontecer a nível mundial, acontece à margem
das teorias dominantes e, até, em contradição com elas. Há vinte anos, o
pensamento político conservador declarou o fim da história, a chegada da paz
perpétua dominada pelo desenvolvimento "normal" do capitalismo - em
liberdade e para benefício de todos - finalmente liberto da concorrência do
socialismo, lançado este irremediavelmente no lixo da história.
À revelia de todas estas previsões, houve, neste período, mais guerra que
paz, as desigualdades sociais agravaram-se, a fome, as pandemias e a
violência intensificaram-se, a China "desenvolveu-se" sem liberdade e
mediante violações massivas dos direitos humanos e, finalmente, o socialismo
voltou à agenda política de alguns países. Concentro-me neste último porque
ele constitui um desafio tanto ao pensamento político conservador, como ao
pensamento político progressista.
A ausência de alternativa ao capitalismo foi tão interiorizada por um como
por outro. Daí que, no campo progressista, tenham dominado "terceiras vias",
buscando encontrar no capitalismo a solução dos problemas que o socialismo
não soubera resolver.
Em 2005, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, colocou na agenda política
o objectivo de construir o "socialismo do século XXI". Desde então, dois
outros governantes - tal como Chávez, democraticamente eleitos -, Evo
Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador), tomaram a mesma opção. Qual o
significado deste aparente desmentido do fim da história? Qual o perfil da
alternativa proposta ao capitalismo? Que potencialidades e riscos ela
contém?
O socialismo reemerge porque o capitalismo neoliberal, não só não cumpriu as
suas promessas, como tentou disfarçar esse facto com arrogância militar e
cultural; porque a sua voracidade de recursos naturais o envolveu em guerras
injustas e acabou por dar poder a alguns países que os detêm; porque Cuba -
qualquer que seja a opinião a respeito do seu regime - continua a ser um
exemplo de solidariedade internacional e de dignidade na resistência contra
a superpotência; porque, desde 2001, o Fórum Social Mundial tem vindo a
apontar para futuros pós-capitalistas, ainda que sem os definir; porque
nesse processo ganharam força e visibilidade movimentos sociais, cujas lutas
pela terra, pela água, pela soberania alimentar, pelo fim da dívida externa
e das discriminações raciais e sexuais, pela identidade cultural e por uma
sociedade justa e ecologicamente equilibrada parecem estar votadas ao
fracasso no marco do capitalismo neoliberal.
O socialismo do séc. XXI, como o próprio nome indica, define-se, por
enquanto, melhor pelo que não é do que pelo que é: não quer ser igual ao
socialismo do séc. XX, cujos erros e fracassos não quer repetir. Não basta,
porém, afirmar tal intenção. É preciso realizar um debate profundo sobre os
erros e fracassos para que seja credível a vontade de evitá-los. Quando, em
Dezembro passado, o presidente Chávez anunciou o propósito de criar um
partido socialista unificado a partir de diferentes partidos que apoiam o
governo, o temor que tal gerou de, com isso, estar a propor um regime de
partido único de tipo soviético, é bem demonstrativo de como estão vivas as
memórias do passado recente.
Se tal desidentificação em relação ao socialismo do séc. XX for levada a
cabo de maneira consequente, alguns dos seguintes traços da alternativa
deverão emergir: um regime pacífico e democrático assente na
complementaridade entre a democracia representativa e a democracia
participativa; legitimidade da diversidade de opiniões, não havendo lugar
para a figura sinistra do "inimigo do povo"; modo de produção menos assente
na propriedade estatal dos meios de produção do que na associação de
produtores; regime misto de propriedade onde coexistem a propriedade
privada, estatal e colectiva (cooperativa); concorrência por um período
prolongado entre a economia do egoísmo e a economia do altruísmo, digamos,
entre Windows Microsoft e Linux; sistema que saiba competir com o
capitalismo na geração de riqueza e lhe seja superior no respeito pela
natureza e na justiça distributiva; nova forma de Estado experimental, mais
descentralizada e transparente, de modo a facilitar o controle público do
Estado e a criação de espaços públicos não estatais; reconhecimento da
interculturalidade e da plurinacionalidade (onde for caso disso); luta
permanente contra a corrupção e os privilégios decorrentes da burocracia ou
da lealdade partidária; promoção da educação, dos conhecimentos (científicos
e outros) e do fim das discriminações sexuais, raciais e religiosas como
prioridades governativas.
Será tal alternativa possível? A questão está em aberto. Nas condições do
tempo presente, parece mais difícil que nunca implantar o socialismo num só
país, mas, por outro lado, não se imagina que o mesmo modelo se aplique em
diferentes países. Não haverá, pois, socialismo e sim socialismos do séc.
XXI. Terão em comum reconhecerem-se na definição de socialismo como
democracia sem fim.
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